EXEMPLO

Viúva e mãe de 10, catadora de lixo estuda e sonha com faculdade em MT 184

Maria Gildete, de 42 anos, pretende fazer faculdade de pedagogia


Catadora de recicláveis, diarista e estudante, Maria Gildete das Chagas, de 42 anos, é um exemplo do que se pode chamar de "mãezona". Mãe de 10 filhos (Sheila, 26, Chaila, 28, Elizângela, 24, Elissandra, 26, Túlio, 18, e Tharles das Chagas, 19, e Jenifer Kelly de Souza, 17, Amábile de Souza, 10, Flávio de Souza, 7, e Pedro de Souza, 13), e viúva, ela ignorou o preconceito e os inúmeros obstáculos que surgiram e se tornou um exemplo de mãe e de mulher.

Maria vive da renda como catadora de materiais recicláveis em Sinop, a 503 quilômetros de Cuiabá, e dos bicos como diarista.

Desde que chegou a este município, com 25 anos de idade, Maria atua como catadora de material reciclável. O ingresso nesta profissão deu-se por intermédio de uma vizinha, conta. “A vizinha chamou para trabalhar lá [no lixão], pois o ônibus passava em frente de casa todos os dias para levar os catadores”, destacou Maria Gildete.

O lixão ao qual Maria se refere era um espaço de recebimento de resíduos no município de Sinop, mas que acabou fechado, há menos de um ano, por determinação judicial, para que todo material gerado pela população da cidade fosse descartado em um aterro sanitário certificado.

Ela trabalha há 17 anos como catadora de recicláveis e disse 'driblar' o preconceito (Foto: Leandro Nascimento/ Secretaria de Meio Ambiente de Sinop (MT).

Conforme Maria Gildete, foram 17 anos trabalhando neste espaço e, dele, retirando renda para o sustento da família. O falecido companheiro, Marcos dos Santos, de 27 anos, com o qual Maria conviveu no segundo relacionamento, também trabalhava ao lado da mulher.

“Lá era bem diferente. Só que, assim, eu trabalhava somente nas horas frias. Nas horas quentes eu ia para casa cuidar dos meus filhos, pois eu era mãe e pai deles. Tinha que levar para a escola, para a catequese, para o dentista”, lembra a catadora.

E foi em meio ao lixo que a vida de Maria começou a ganhar novas motivações. Ao lembrar do ex-companheiro a emoção vem à tona. Afinal, foi dele que partiu um dos grandes incentivos para a sua vida: retomar os estudos e, ao mesmo, ingressar no ensino superior.

Maria conta que era ao lado de Marcos, ainda no lixão, que as conversas sobre estudo sempre ocorriam. “Ele falou assim que eu tinha que trabalhar, mas ter objetivo na vida, que era o de voltar para a sala de aula. Aí eu comecei a estudar. A gente começou a estudar juntos eu, ele e minha segunda filha Sheila. Paramos porque comecei a trabalhar à noite. Depois que ele faleceu, eu voltei a estudar o ensino fundamental e o médio”, lembra Maria.

A morte do ex-companheiro deu-se de forma trágica. Maria explica que, durante a semana, Marcos trabalhava no lixão como catador e, aos fins de semana, como segurança em uma boate, também em Sinop. Há cerca de cinco anos, ao tentar intervir em uma briga no estabelecimento, Marcos foi atingido por um tiro e morreu. "O colega avisou e daí eu estava em casa com a mãe dele. Foi um baque".

O choque não afastou Maria dos planos traçados pelo casal. Depois da morte do companheiro, a retomada dos estudos foi quase que uma homenagem. Atualmente, Maria cursa o Ensino Médio na Educação de Jovens e Adultos (EJA), em uma escola próxima à casa onde mora, no bairro São Cristóvão. Após o Ensino Médio, tem planos de ingressar na universidade. Se seguir o mesmo caminho da filha Sheila, a única dos 10 filhos a estar cursando faculdade, a próxima meta é o curso de pedagogia.

Preconceito

Maria Gildete diz que trabalhar com a coleta de materiais que vão para o lixo não é razão para vergonha. Mas, sim, motivo de orgulho.

E se o preconceito alguma vez impediu de continuar trabalhando com o que, para muitas pessoas, não têm valor comercial, Maria responde com ênfase: “Muita gente tem preconceito. Elas ficam olhando e falam: ‘Ah, você trabalha no lixão? Não tem vergonha?’ Mas eu sempre tive meu dinheiro, nunca precisei de ninguém”.

A preocupação em relação ao trabalho, para os filhos, é em relação à saúde da catadora. “Eu acho muito sol quente e sempre aconselho minha mãe”, destacou, Sheila, a filha mais velha.

O lixo em Sinop

Desde que o antigo lixão fechou, em Sinop, parte do sustento da catadora Maria Gildete continua vindo do lixo. Desta vez, dos materiais recicláveis recolhidos em uma área distante aproximadamente 7 quilômetros de Sinop, para onde são destinados os resíduos gerados pela construção civil. Restos de materiais como plástico, lona, ferro e ferragens viram fonte de renda. De acordo com os catadores que atuam no local, são pelo menos 30 pessoas no mesmo ponto.

Há, no grupo, catadores que também sobreviviam da coleta no antigo lixão, a exemplo de Maria Gildete, e que migraram de destino. Segundo a secretária de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Sinop, Luciane Bertinatto, a área onde Maria Gildete e os demais catadores atuam corresponde a um espaço provisório de descarte e que recebe unicamente resíduos do setor da construção.

“O que foi fechado é a destinação de lixo úmido misturado com material de construção civil [no antigo lixão]. O lixo úmido hoje de Sinop não tem mais contato com o solo, mas é entregue a um aterro sanitário que trabalha dentro das normas ambientais. O resíduo da construção civil é um material inerte e temos, neste local, uma situação provisória. Este é um resíduo da iniciativa privada e que hoje está disponibilizada uma área pública”, afirma a secretária.

De acordo com o município, está prevista a ativação da coleta seletiva, ainda no segundo semestre. Num primeiro momento, a coleta seletiva deve envolver membros da Associação dos Catadores de Materiais Reciclados de Sinop (Acamares), da qual Maria Gildete já foi presidente.

“O foco hoje é trabalhar com estas pessoas que estavam naquele local [lixão], ficaram desamparadas e que estão associados à Acamares. Atender aquilo que ficou acordado atrás, de que a prefeitura deveria auxiliar em dar condições dignas de trabalho”, pontua a secretária.

Para Maria Gildete, que há quase 20 anos tem sua renda obtida, em partes, com a coleta de materiais recicláveis, a coleta seletiva pode representar condições mais dignas de trabalho, pois, a partir de seu início, catadores não mais trabalhariam em lixões, mas em espaços como barracões para onde os materiais seriam destinados.

“A gente está na expectativa que isso chegue e todas as pessoas e que tenham consciência em ajudar os catadores de Sinop. Estamos fazendo não para nós, mas para o planeta. O mundo está pedindo socorro. Isso acho que é um sonho para todos os catadores de Sinop que queiram trabalhar”, enfatiza Maria Gildete.

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