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EM PARANATINGA

Gravuras rupestres são apagadas intencionalmente de gruta 'sagrada' 207


Fotografia: Reprodução

Gravuras rupestres inscritas em uma gruta localizada em Mato Grosso, considerada sagrada por 11 etnias do Xingu e tombada como Patrimônio Cultural da União foram inteiramente ‘apagadas’ intencionalmente. A descoberta aconteceu durante uma expedição realizada entre 10 e 19 de setembro, por indígenas e pesquisadores.


A Gruta de Kamukuwaká fica em Paranatinga (381km de Cuiabá). De acordo com a assessoria dos pesquisadores, todas as evidências apontam para um ato premeditado de vandalismo, pois há sinais de que ferramentas foram utilizadas durante o procedimento, e até mesmo a Polícia Militar atestou que alguma ferramenta foi usada para apagar as pinturas da rocha, o que configuraria um ato intencional.

Emiliene Ireland, pesquisadora em Antropologia Cultural e Folclore, faz um paralelo para tentar explicar a importância destas pinturas para o conhecimento tradicional do povo wauja: “a degradação de sítios como Kamukuwaká seria conceptualmente equivalente à profanação da Basílica do Santo Sepulcro, em Jerusalém, e à destruição de todos os exemplares da bíblia, em simultâneo, ou seja, à eliminação do testemunho, do veículo e, consequentemente, da mensagem”.

Gruta antes

Gruta depredada

As narrativas sagradas são transmitidas oralmente aos mais jovens, estabelecem conexão entre a história da gruta e a origem do dia e da noite, dos seres humanos, dos animais, da criação de utensílios, da medicina, de técnicas tradicionais de subsistência e manejo da floresta, e das próprias regras morais e de conduta social, assim como importantes rituais que se estendem a todos os povos do Alto Xingu e que aconteceram no local durante várias gerações. “Estão nos tirando as narrativas históricas. É por isso que os jovens não as conhecem mais, porque eles não vão ver a casa de Kamukuwaká”, lamenta Arauta, ancião e liderança wauja.

Kamukuwaká é o nome da gruta, e também de um herói mítico que, segundo a crença local, foi responsável por trazer aos povos xinguanos o conhecimento ancestral que fundamenta seus valores éticos e morais. Ele teria sido o primeiro guerreiro local e defendeu seu povo dos ataques de seu poderoso inimigo Kamo (o Sol), que tinha inveja da beleza do povo Kamukuwaká. Com a ajuda de pássaros que abriram um buraco no teto de sua casa, transformada em pedra por Kamo, ele escapou para o céu, onde aprendeu e transmitiu os ensinamentos sagrados que norteiam a conduta destes povos. Neste contexto, a gruta seria a casa atemporal desta entidade extra-humana chamada Kamukuwaká.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) fez uma denúncia ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal após constatar o estrado feito na gruta, mas, enquanto novas informações e laudos não forem disponibilizados, não é possível mensurar os danos causados nem apontar os possíveis responsáveis pelo ato de vandalismo.

Emiliene Ireland afirma que a maioria das gravuras danificadas retratavam animais. Segundo a crença local, “as representações de animais, peixes e partes íntimas femininas geram vida e provêm abundância”, pontua Emiliene Ireland, e acrescenta que toda a simbologia das gravuras depredadas é fundamental para o equilíbrio social nas aldeias.

“Os motivos representados nas gravuras rupestres estão na base de um sistema gráfico regional reproduzido nos corpos pintados e no artesanato tradicional. Motivos estes que, em conjunto com as narrativas sagradas que os explicam, consubstanciam o sistema ancestral de transmissão de conhecimento e reprodução cultural”, complementa a arqueóloga Patricia Rodrigues, especialista da cultura Wauja e doutoranda em antropologia na Universidade de Notre Dame, nos EUA.

Por outro lado, é possível que uma parte das gravuras esteja intacta, pois está encoberta por areia, já que este e outros trechos do rio Tamitatoala estão assoreados. O assoreamento é o acúmulo de terra ou areia no fundo dos rios e, dentre outras razões, é causado pelo desmatamento de suas cabeceiras e das matas ciliares que compõem suas margens.

Arqueólogas e membros das fundações inglesas sem fins lucrativos Factum Foundation e People’s Palace Projects, que estiveram presentes na expedição, afirmam ser “alarmante a crescente erosão das paredes e o acúmulo de sedimento na gruta”.

A Gruta Kamukuwaká fica em uma propriedade privada, portanto fora do Território Indígena do Xingu. No local, segundo relato indígenas, é cada vez mais frequente o acúmulo de lixo oriundo de pessoas que vão até lá para praticar pesca predatória ou se banhar nas cachoeiras. "Nosso rio está quase morto. Ele é o nosso mercado, onde buscamos o peixe para nos alimentar. Aqui havia muito peixe, mas agora, por causa do desmatamento e dos pescadores, o peixe não fica mais aqui. Kamukuwaká está machucado. Somos nós, Wauja, que o podemos salvar. Nós vamos voltar pra cá, montamos aldeia e cuidamos de Kamukuwaká e do rio”, pontua Akari Waurá, historiador e liderança Wauja.

Além de tudo isso, o sítio arqueológico é também palco de conflitos, já que, desde a delimitação da Terra Indígena Batovi, em 1997, os Wauja têm reivindicado a proteção e o direito ao usufruto de seus espaços de perambulação atemporais que abrangem toda a extensão do rio Tamitatoala, isto é, aqueles que se localizam fora do território indígena, como é o caso da gruta.

No entanto, o sítio é ameaçado não só pela depredação decorrente da pesca predatória, assoreamento, poluição e o recente ato de vandalismo, mas também por alguns projetos de empreendimento, como o da rodovia BR-242/MT e o da Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (FICO), cujas rotas geográficas e econômicas esbarram nas causas ambientais e culturais da gruta.

A expedição realizada faz parte de um projeto que visa resguardar a gruta de eventos como o ocorrido. A iniciativa resulta de uma parceria entre as fundações Factum Foundation e People’s Palace Projects; a Associação Indígena Tulukai (Povo Wauja). Uma equipe voluntária de arqueólogas de Mato Grosso prevê o registro do patrimônio histórico usando tecnologias de imagens 3D em alta resolução, incluindo escaneamento a laser e fotogrametria.

Os dados armazenados na expedição serão utilizados como base para uma possível “restauração digital” da gruta, que utilizará modelagem 3D para restabelecer as partes das gravuras que foram vandalizadas. Como parte do projeto, uma reprodução do patrimônio depredado será exibida na Bienal de Veneza em 2019.

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