• Diamantino, 10/04/2020
PANDEMIA

Exploração das cafetinas obriga trans a descumprir quarentena e continuar na rua

Os travestis e trans que continuam nas ruas se prostituindo para ter onde dormir


O novo coronavírus  ainda não alterou totalmente a rotina das transexuais que atuam como profissionais do sexo na região do Zero KM, no Jardim Potiguar, em Várzea Grande. E que o movimento de clientes continua praticamente o mesmo de antes da pandemia chegar a Mato Grosso, que já tem 2 casos confirmados oficialmente e pelo menos 73 sob suspeita.





Enquanto os clientes não somem do Zero KM, as trans aproveitam para ganhar dinheiro. Sabem que a situação vai piorar e que  ficarão sem fonte de renda por um bom tempo.


Esse é o caso da trans que vamos identificar como B, de 22 anos, que conversou com . Mesmo sabendo do risco de contaminação pelo coronavírus, não abre mão de oferecer o que chama de “programa completo”.


“Meu programa dura 1h30, com direito a beijo na boca. Sou ativa e passiva. Faço beijo grego e chuva dourada. Sou bem dotada. Cobro R$ 250 e passo cartão. Sei que existe o tal coronavírus, mas não posso abrir mão de ganhar dinheiro agora. A situação vai piorar para quem vive do sexo. Então, vou aproveitar”, disse.


Já a trans R, com mais de 30 anos, se considera “experiente” no ramo da prostituição, e não encara a situação com a mesma tranquilidade de B. Sua preocupação está voltada para as “manas” que residem nos albergues, quitinetes e flats mantidos por cafetinas que estão exigindo o pagamento das diárias, apesar da necessidade das pessoas entrarem em quarentena para evitar a contaminação.


Por isso, R faz um apelo para que as entidades de direitos humanos e instituições como Ministério Público e Poder Judiciário olhem para essa população. Segundo A, diante da exigência das cafetinas, as trans acabando indo para as ruas em busca de dinheiro, se expondo ao coronavírus e expondo os eventuais clientes.


“Nós, transexuais e travestis precisamos de um olhar humano. Eu quero que neste momento as casas de abrigo, albergues, flats, quitinetes e residências onde vivem as trans possam olhar para elas e cuidar delas. Não deixar ir pras ruas correr risco de contrair e de espalhar pra outras e para clientes”


Além disso, cobra sensibilidade das cafetinas. Isso porque, a exigência do pagamento de diárias sem respeitar a quarentena, tem obrigado as trans a se prostituir apesar do risco de contaminação.



Mas as cafetinas e donas de albergues não estão preocupadas com a saúde das trans



“Mas as cafetinas e donas de albergues não estão preocupadas com a saúde das trans. Estão preocupadas com seus luxos e suas contas que são pagas com o corpo das trans e se a trans não têm dinheiro todo dia, não têm abrigo.  Ou vai para rua fazer a diária ou vai para sua cidade de origem”, completou.


A ainda aproveita para pedir a intervenção das autoridades para assegurar a quarentena das profissionais do sexo. Outra preocupação é com as trans em situação de rua e usuárias de drogas. “Cadê as autoridades pra enviar uma ordem judicial para estes lugares e obrigarem os donos a fazer quarentena sem custos para as meninas?  Ninguém liga.  Não posso deixar de pensar nas manas que são moradoras de rua, nas usuárias de drogas, nem nas soropositivas. Elas existem e estão na nossa convivência. O que faremos por elas diante de tudo isso?”.


Outro ponto de prostituição de trans e travestis é o Posto São Mateus, na região do Coxipó. Ao contrário do Zero KM, que continua movimentado, por lá, o movimento já reduziu drasticamente.


conversou com X que também está preocupada com a queda drástica do número de clientes, porque todas dependem do que arrecadam com os programas diários para sobreviver. Relata que por iniciativa própria, o grupo que trabalha no pátio do posto já tomou algumas medidas de prevenção.


“Estamos usando máscaras e carregando álcool gel na bolsa. Depois do programa, sempre procuramos fazer a higienização completa. Tem outros cuidados. Mesmo que o cliente ofereça muito acué (dinheiro na gíria trans) não rola mais beijo na boca. O tempo dos programas também diminuiu. A gente continua fazendo bem feito, mas tratando de se cuidar”, concluiu.


Justamente para prevenir o contágio dessas profissionais do sexo, que representam 90% desse grupo, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) faz diversas orientações. Entre elas, evitar bares, academias, saunas, clubes de swing ou festas.


As trans e travestis também são orientadas a procurar que paguem por stripe tease ou exibição online. No caso de programas, evitar receber clientes em casa para não contaminar o ambiente pessoal e tomar banho completo após o atendimento.


Em caso de “ficar na pista”, manter distância das outras profissionais do sexo e carregar álcool gel e lenços de papel na bolsa.


A Antra também orienta a aceitar programas somente se o dinheiro “valer a pena” e com clientes habituais. Além disso, recomenda o uso de máscaras, lutas e evitar o contato com fluidos corporais.

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